Sobre os homens da minha família.
Nesta carta desabafo, temos uma paciente manifestando o sofrimento de se sentir alienada e excluída por um arranjo familiar que não admite ser contrariado, pois a diferença é sempre atacada como um obstáculo à “harmonia familiar”. Esse arranjo implacável pode ser chamado de machismo, patriarcado ou máfia, enfim, o funcionamento é violento e enlouquecedor para quem não se submete às regras do jogo familiar.
“Um dia, espero que não tão distante, o câncer da família na qual eu convivo vai acabar: os homens carregados de machismo e preconceito. Quando querem se impor, usam um tom de voz ameaçador - querem sempre ter a última palavra e fazer valer sua vontade a qualquer custo. Mulher nesta família não tem voz nem respeito.
No que diz respeito aos meus posicionamentos, normalmente sou a louca, chata, a que quer arrumar encrenca à toa. Toda vez que contradigo a vontade dos senhorios, eles começam a incorporar o mafioso tom de ameaça. Os errados somos nós - eles sempre tem razão.
Mas saibam que junto com os atuais moralistas, temos também o alcootra, o agressor de mulheres, o usuário, o machista. Claro que essas “virtudes” não são acompanhadas de humildade. Continuam se achando as melhores pessoas do mundo.
Bando de homem lixo, geração cancerígena.
Mas um dia este câncer vai acabar e acredito que a geração que vai ficar seja mais esclarecida e mais respeitosa com as mulheres de minha família.
Para a geração de meus filhos e netos, eu peço que respeitem as mulheres, não nos ameacem com suas grosserias! Encarnem a mudança que precisamos para um futuro melhor. Façam a diferença! Estejam ao nosso lado, queremos apoio e respeito.
E jamais se definam pelo passado de vocês, mas aprendam a ser melhores a cada dia.
O homem colonizado pelo machismo entende tudo em termos de posse e interesse, assim, não consegue conceber minha luta em termos de uma luta por RESPEITO.
RESPEITO RESPEITO RESPEITO RESPEITO RESPEITO RESPEITO RESPEITO RESPEITO
Foi por isso que lutei a vida toda.
Homens lixo nunca saberão o que é isso”
Ser diferente não significa ser errado. Uma cultura que junta nossa forma de existir e moralidade acaba se tornando um “câncer”, porque as dinâmicas que orientam nossa existência são múltiplos e diversos, bem diferente do campo moral. Quando a vida é obrigada a ser de uma determinada forma inflexível, ela se desorganiza e se torna destrutiva. Percebam como o que chamamos machismo é uma forma rígida de enxergar as relações de gênero, e vejam, pelo exemplo acima, como isso impacta negativamente as interações familiares.
Essa rigidez complica as relações entre irmãos, entre pais e filhos, e, por fim, acaba com nossa vida amorosa. Isso não acontece por acaso, ou por opção pessoal, isso se dissemina e perpetua pelas gerações. A transmissão é o grande ponto de trabalho para conseguirmos combater essa rigidez ideológica. Precisamos de mudanças de longo prazo que afetem positivamente as próximas gerações.