O que sacrificamos para caber?
Este texto é mais uma doação corajosa de uma mulher lutando para encontrar seu lugar no mundo, seja ele o corporativo ou a vida. Começamos pensando no trabalho como um ganha pão, mas com o passar do tempo vamos percebendo que somos devorados lentamente. Ficamos até mais tarde, entramos mais cedo, sonhamos com a promoção, reconhecimento do gestor, tememos ser demitidos e cedemos até não sobrar nada. Os imperativos deste “sacerdócio corporativo” se confundem e intensificam quando falamos do que se espera de uma mulher no mundo do trabalho.
Neste texto, contemplamos o labirinto de expectativas que espera a mulher que deseja ser líder.
“Durante muito tempo, eu achei que bastava entregar, fazer bem-feito, sustentar resultados, estruturar caminhos e provar competência. Mas, aos poucos, fui percebendo que, quando você é mulher, nem sempre a entrega fala sozinha. Muitas vezes, junto com ela, vem uma cobrança silenciosa sobre a forma como você ocupa o espaço; o tom da voz, a roupa, a postura, a firmeza, a sensibilidade, a intensidade, a presença. Pierre Bourdieu, em A dominação masculina, me ajudou a compreender como a dominação se mantêm justamente porque deixa de parecer imposição. Ela entra na rotina, nos gestos, nas expectativas familiares e profissionais, na forma como uma menina é elogiada por ser “prestativa”, “madura” ou “responsável”.
Foi quando comecei a reconhecer essas regras invisíveis que entendi: Não bastava entregar, eu ainda precisava caber.
À medida que fui avançando na carreira, não construí apenas repertório em gestão; construí também uma forma própria de presença. E essa presença precisou negociar com ambientes não muito inclinados a me aceitar integralmente. Foi neste ponto que a liderança começou a me revelar suas sombras.
Quando você é mulher, o percurso não é o mesmo. Existem regras não escritas sobre como você deve se comportar, falar e se apresentar para ser considerada competente.
Preservar quem eu era neste sistema se tornou uma batalha longa e desgastante. Em muitos momentos, senti que precisava equilibrar competência com aceitabilidade, firmeza com doçura, opinião com o cuidado para não parecer excessiva. Era como se uma mulher em posição de liderança precisasse passar por uma dupla validação: comprovar que pode entregar a meta e que merece a posição de converter resultados. Disputar espaço neste mundo é como se esforçar para vestir uma roupa feita para outra pessoa.
Aprendi que algumas formas de existir são consideradas aceitáveis e outras classificadas como problemáticas. Em muitos territórios, ser direta pode ser lido como agressividade; ser exigente pode ser visto como dureza; demonstrar emoção se torna falta de controle; defender uma ideia com convicção pode ser confundido com vaidade. Essa assimetria não é detalhe, ela molda nosso jeito de entrar na sala, escolher palavras, modular a voz, administrar a expressão facial e calcular presença.
O ambiente corporativo é atravessado por emoções o tempo todo; pressão, medo, ambição, vaidade, ansiedade, insegurança e desejo de reconhecimento. A diferença é que nem todas as emoções recebem o mesmo nome quando aparecem em corpos diferentes. Essa diferença de leitura se torna uma forma de autocontrole permanente: pensar antes de falar, calcular antes de reagir, sorrir antes de discordar, suavizar antes de confrontar.
O mais perverso é que nós mesmas passamos a nos avaliar a partir dessas categorias. Não é preciso que alguém diga todos os dias que uma mulher deve ser menos intensa, menos direta ou menos visível. Basta que o cenário premie as mulheres que cabem melhor no molde e puna, ainda que de forma sutil, aquelas que ultrapassam a medida esperada. O limite deixa de parecer imposição externa e passa a soar como prudência ou bom senso.”
Essa é só a primeira parte, acompanhe que em breve publicamos a conclusão deste texto. Novamente, deixo meus agradecimentos aos voluntários/escritores pelo carinho em compartilhar suas experiências conosco. Caso você goste e queira comentar, pode me enviar que eu comunico à autora.