Um reencontro inesperado
O amor não me parece uma estrada reta, planejada para levar pessoas de um ponto a outro da maneira mais rápida e segura possível. O caminho que o amor abre em nossos corações se assemelha ao trajeto de um rio avançando pelos planaltos de nossas memórias, como se o presente-passado-futuro fossem uma paisagem só. O serpentear, as idas e vindas, o recuo inesperado, a pausa, um reencontro, a passagem do amor convoca e ressuscita sensações que julgávamos já bem mortos e enterrados. Opa! Você por aqui!?
Neste texto vou compartilhar memórias de uma paciente que estava há 7 anos sem se relacionar amorosamente, e dado que um encontro inesperado fez seu coração vibrar novamente, gostaria de compartilhar com vocês este milagre.
“Pelo que posso me lembrar, eu tinha 24 e ele 21. Trabalhávamos na mesma empresa e nos envolvemos em uma aventura extra conjugal. Nos encontrávamos sempre que podíamos, era sempre emocionante, bom, alegre, gostoso. Não tinha constrangimento, pudor. Havia, pelo contrário, muita química, pele, desejo e palhaçada - sempre nos divertíamos.
Acabei me apaixonando, e fervia de ciúmes ao vê-lo conversando, brincando com outras colegas do trabalho, mas ele era assim com todo mundo. Eu não podia exigir nada diante da minha situação e comecei a conversar mais friamente por insegurança. Ele começou a viajar muito a trabalho e quando me procurou eu ignorei, sem explicações, até porque eu não sabia finalizar este tipo de situação, simplesmente ignorava e sumia.”
Vou interromper a leitura aqui só para ressaltar: observe como asfixiamos um amor ao vivo e a cores. Insegurança, medo de rejeição, tudo isso nos faz segurar o curso do amor, uma espécie de aborto silencioso. Muito se fala do aborto de fetos, porém, nunca li um texto sobre o aborto de afetos. Quantos amores não são enterrados em nossos corpos diariamente? Quais os efeitos disso em nossa vida? Não entendemos que seguir o medo nos faz sacrificar alegrias, paixões, tesões, e infelizmente, nossa própria vontade de viver.
“Minha vida particular é sempre muito ruim, cheia de problemas. Estava tão acostumada ao ruim que acabei acreditando que eu merecia isso. Enfim, ele viajava no período em que eu pedi as contas da empresa e quando ele voltou eu já não estava mais lá.
Meu casamento era muito infeliz, mas mesmo diante de algo tão bom não conseguia me livrar do ruim. Creio que a dependência me fez perder a coragem de viver o bom. No tempo em que saí da empresa meu marido estava vivendo em Cajamar, arrumei minhas coisas e fui embora pra lá com meu filho achando que viveria o sonho de amor.
Foi um mês de tristeza, abandono e ilusão, acreditando que teria o que sempre quis: amor. Frustrada, deixada de lado e infeliz, arrumei tudo e voltei pra São Paulo ainda mais ferida e infeliz.
24 anos se passaram sem notícias dele. Um dia começamos a nos seguir no Instagram e conversamos um pouco. Incrivelmente, foi como se o tempo não tivesse passado pra nós.
Recentemente, ele viu uma postagem no Instagram e me falou que vinha para São Paulo a trabalho. Após falar sobre as pessoas que conhecíamos daquela época em que trabalhamos juntos, ele comentou sobre como nos dávamos bem naquela época e me chamou para tomar um café. Eu aceitei e marcamos um botequinho para colocar a fofoca em dia.
E aconteceu. Nos reencontramos depois de 24 anos! Muita loucura 🥰.
De cara, quando entrei no carro olhamos um para o outro e gargalhamos sem dizer nada. Foi engraçado, é como se já soubéssemos o que iria conhecer - queríamos a mesma coisa.
Ele era ele mesmo: despojado, bermuda, camiseta, chinelo - senti inveja daquela leveza rs
Caminhamos pela paulista, encontramos um barzinho e sentamos um do lado do outro. Conversamos da vida, encontros, família, perdas, separações, luta, trabalho, amigos em comum. O tempo voou, demos tanta risada! Algumas vezes as mãos se tocavam, os olhos se cruzaram como se fossem os olhos de 24 anos atrás. Conversa vai e vem, nos beijamos um beijo delicado, demorado. Um carinho no rosto e um olhar, um beijo mais quente, mais profundo me fez sentir aquele presa afiada que ele tem. Eu amo rs. Quenturas pelo corpo e mais risos, tipo, nossa! Não acreditava no que estava acontecendo.
Ficamos por lá ainda um tempo. Ele me convidou para ficarmos juntos a noite e eu aceitei, mas brinquei que seria só dormir mesmo! kkkk
Tudo aconteceu de forma tão carinhosa, quente, sentia tesão só de olhar em seus olhos.
Foi sensacional. Não existiu, vergonha, pudor, constrangimento. Foi como se nosso corpos nunca tivessem se separado. Fiquei passada com isso! 🙄aff
A conversa seguiu e falando do passado ele me revelou um sentimento de mágoa que nunca imaginei. Desabafou que nunca entendeu o porquê da minha frieza e distanciamento no passado.”
Neste ponto a paciente descobre que era possível alguém gostar dela, e que seu sumiço deixou feridas no coração de seu parceiro. Essa surpresa é comum em pessoas que vivem correndo atrás de pessoas que não as amam, acabam se acostumando a não serem amadas nem vistas.