Carta de um amor abusivo

Como estou gostando do gênero “cartas de amor”, aceito de bom grado as contribuições dos pacientes que queiram compartilhar suas histórias e curtir alguns comentários de minha parte, prometo ser generoso e honesto.

Esta carta abaixo descrita foi adaptada para não identificar autores, e retrata uma relação francamente abusiva. A paciente está preocupada e quer ajuda para se livrar dessa situação, além de querer aprender a não cair em ciladas como essa. Usarei a carta para traçar algumas ideias que colocarei em itálico, para ajudá-las a identificar sinais de perigo, tipo: corre que é cilada Bino!..rs

Uma marca desta carta que gritou em minha percepção é a falta de inclusão da parceira. Não existem brechas, portas, perguntas, curiosidade, ou citações do que ela demonstra e sente em relação aos conteúdos descritos. Não existe participação da parceira, apenas um esquema fechado de ideias e argumentos que coagem a leitora a se submeter a um “esquema”. Isso seria o que a psicanalise descreveria como obsessivo, afinal, apesar de dizer que ama, a pessoa se encontra fechada em seu mundo particular e não dá ao outro nenhuma chance de participar desta trama - aqui ela só pode entrar como um objeto sujeitado, caso ela não aceite os termos, ele a expulsará de sua vida.

“Nãosei se vou conseguir falar tudo por aqui o que eu queria, mas prometo ser breve.

Eu estou bem sentido e me pego pensando o tempo todo onde deixamos essa situação chegar.(usar o “nós” é uma forma dissolver a responsabilidade pelas coisas que aconteceram, compartilhando com a vítima a culpa pelo seu sofrimentoNão deveria ser assim, sabe?(opa, veja como poderíamos estar bem se você colaborasse) A forma como tudo aconteceu... Isso a gente não consegue apagar, infelizmente. Já passou.(sempre podemos conversar sobre coisas que nos afligem em uma relação, o ponto não é apagar e sim cultivar um espaço de legitimidade para que ambos possam compartilhar como o parceiro afeta a sua vida - para bem ou para o mal)

O que pode ser diferente é o que escolhemos seguir daqui pra frente. (poético e otimista, ele vai conseguir superar esta situação)

Tudo o que tenho hoje, toda a minha força, eu quero usar para trazer você de volta pra mim e construirmos, daqui pra frente, algo que ainda não foi feito.(o famoso: a partir de agora vai ser diferente! Dica: sempre baseie sua decisão no comportamento do indivíduo até o presente, e não no que ele diz que vai fazer - não tenha receio de avaliar e julgar a pessoa para quem você abre seu coração, isso é muito importante. E faça isso tendo em vista o que ele faz, e não o que diz)

Eu amo você e sinto sua falta. Faria o que fosse preciso para ter você de volta.(Sentir a falta, sofrer, querer alguém de volta pode parecer amor, porém, não leva em consideração o que a outra pessoa acha disso. Não existe amor sem respeito, e “fazer o que for preciso” soa mais como uma forçação de barra do que demonstração de amor. Neste caso, a atitude mais amorosa seria perguntar a amada o que ela acha disso tudo, e não atropelá-la com o que ele chama de amor, mas que está se traduzindo como posse e arrependimento por estar prestes a perder algo que aprecia - tipo uma pessoa que bateu o carro.")

Mas não quero forçar isso agora. Tenha seu espaço, aproveite sua família, é isso que vai ser reconfortante para você. Tenho certeza de que isso vai te renovar e mudar muita coisa dentro de você.(“não quero forçar isso agora?” , vai forçar depois? Mais um exemplo de respeito simulado)

Se você mudar de ideia, em relação a nós, pode me procurar depois. Estarei te esperando.(muito generoso, magnânimo, uma pessoa que vacilou e ainda espera que a vítima corra atrás dele) E, caso isso não aconteça, o melhor cominho vai ser eu sair de vez da sua vida e seguir meu caminho longe daqui, do Guarujá. Já está tudo muito pesado para mim, e eu não me vejo mais aqui se não for com você. (Chantagem emocional)

Se seu pai precisar de algum help com algum trabalho pode me procurar vou adorar poder ajudar ele e você no que precisar.(bondade cosmética)

ficaremos bem.(novamente, como ele sabe? Querer ficar bem é diferente de querer que ela fale o que realmente pensa e sente, e isso pode encerrar a relação. Logo, não se submeta a uma paz que te violenta)

eu te amo muito. se cuida

estarei te esperando.

com amor,

Fulano”

A cereja do bolo vem agora, uma mensagem mandada no pix: “Me deixa te responder me desbloqueia para ouvir ao menos o que eu tenho para falar.” Quando a pessoa não se preocupa com o seu espaço, pega seu celular, manda mensagens por vias inusitadas, isso poderia soar como um amorzão louco né!? Só que não, isso é invasão. Nem toda violência é física, podemos sofrer violência moral, emocional e sexual. Perceba como nesta carta o parceiro não está nem um pouco preocupado em entender o lado da pessoa que diz amar. Isso demonstra como ele está mais interessado em manter a paciente em sua esfera de influência do que com o seu bem estar - ou seja, a prioridade dele são os próprios interesses.

Ter uma relação boa não significa que ela durou bastante, ou que eu esteja ali como namorado ou esposa - isso não significa relação. Uma boa relação é quando eu consigo me preocupar com o bem estar do outro para além de uma simples satisfação dos meus interesses, isso porque meu parceiro pode não estar feliz comigo, ou com uma situação que para mim está maravilhosa. Não existe felicidade conjugal quando só o meu lado é contemplado, por isso é muito importante que aprendamos a falar e expressar nossos interesses e sentimentos em uma relação. Fazer isso te permite avaliar se a pessoa que está ao seu lado te respeita e consegue verdadeiramente te ouvir.

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Cartas para quem ama