Relato de uma experiência com psicodélicos
Queridos leitores, eu tenho trabalhado com alguns pacientes do sexo masculino a possibilidade da realização de experiencias com psicodélicos com o intuito de desconstruir nossa “programação” de fabrica que nos orienta para a dessensibilização emocional e para a hiperprodutividade. O que vem aqui é um relato escrito por um paciente sobre sua primeira experiência. Este relato não tem como objetivo incentivar o uso destas substâncias sem o devido acompanhamento médico psicológico. No momento em que escrevo, o uso de psilocybe cubensis ainda não foi regulamentado para uso terapêutico, e apenas a ayahuasca possui uma regulamentação para uso no contexto religioso.
“Esse é um relato de como foi a minha primeira experiência com Psilocybe Cubensis no dia 22/07/2026. Foi uma vivência bastante intensa, marcada por lembranças, emoções, percepções sobre a minha trajetória e reflexões profundas sobre passado, presente e futuro. Senti que o profundo estado meditativo que o alucinógeno proporciona me colocou diante de partes importantes de mim mesmo, algumas acolhedoras e bonitas, outras ainda dolorosas, mas todas necessárias para o meu processo de desenvolvimento pessoal.
Antes de iniciar, preparei cuidadosamente o espaço onde a experiência aconteceria. Escolhi a sala do meu apartamento, apaguei as luzes e deixei apenas a iluminação da televisão ligada. Coloquei na TV uma playlist com sons meditativos de cura e acendi um incenso, buscando criar um ambiente mais tranquilo, acolhedor e propício à concentração. Também deixei o vidro da sacada fechado, pois estava frio e eu não queria que o barulho da rua interferisse no meu foco.
Depois de fechar os olhos e começar a me concentrar na respiração, iniciei um diálogo comigo mesmo. Passei a dizer internamente coisas agradáveis e acolhedoras, como se estivesse oferecendo apoio a mim mesmo desde o início da minha história. Disse que estava comigo desde sempre, que havia acompanhado todas as minhas experiências, minhas conquistas, as relações de amizade e afeto que construí, assim como minhas frustrações. Também afirmei que sentia orgulho do adulto que me tornei: uma pessoa justa, empática, boa, disciplinada, sem vaidades materiais, interessada em aprender e comprometida com as pessoas com quem se relaciona.
Logo após esse primeiro diálogo interno, tive algumas visões muito bonitas relacionadas à minha infância. Pude me ver com a minha família, meus pais e meus dois irmãos, em diversos momentos bons que vivemos juntos, especialmente em pequenas viagens que meu pai nos proporcionava. Durante essas lembranças, veio com muita clareza a consciência de que sou uma pessoa privilegiada por ter nascido e sido criado pelos meus pais, que nunca deixaram faltar educação, lazer, amor, carinho e afeto.
Essa etapa da visão da infância se encerrou com uma cena de despedida. Era como se eu estivesse me despedindo dos meus pais, agradecendo por todo o cuidado e carinho recebidos ao longo da minha infância, e ao mesmo tempo me sentindo pronto para partir e viver a minha própria vida. Foi uma despedida simbólica, marcada por gratidão e por uma sensação de transição.
Em seguida, surgiram visões de mim no presente, já adulto. Vi aspectos da minha identidade atual: alguém que gosta de andar de moto, tocar guitarra, estudar, buscar conhecimento e se desenvolver continuamente. Essa parte trouxe uma percepção de movimento, construção e busca por sentido. No entanto, também foi nesse momento que apareceu o primeiro sentimento negativo mais forte, quando vieram imagens relacionadas à minha vida profissional.
Ao entrar em contato com essas questões do trabalho, eu orei e chorei. Perguntei por que eu estava passando por situações de injustiça, falta de reconhecimento e rejeições na empresa em que trabalho, experiências que me deixam profundamente triste, especialmente porque sinto que entrego comprometimento, responsabilidade e dedicação. Foi um momento emocionalmente difícil, no qual percebi o quanto essas vivências profissionais têm afetado o meu lado emocional.
Outra visão marcante da vida adulta foi relacionada à solidão e à falta de afeto. Ficou claro para mim que uma das lacunas presentes na minha vida adulta é o desejo de ter ao meu lado uma mulher por quem eu possa me apaixonar, com quem eu possa dar e receber carinho, construir afeto e planejar um futuro em conjunto. Nesse momento, tive inclusive a visão, e quase a audição, do nascimento de uma criança, como se fosse meu filho.
Mais tarde, durante a sessão de terapia, surgiu uma possível outra interpretação dessa imagem feminina que apareceu durante a meditação. A mulher que me trouxe sentimentos de afeto pode também ter representado um encontro com o meu feminino, que esteve apagado a anos, como um convite ao resgate do meu lado emocional, sensível, estético, sedutor e afetivo. Essa possibilidade me pareceu importante, pois ampliou o significado da experiência para além do desejo de uma relação amorosa, apontando também para uma necessidade do reavivamento do meu eu feminino, quebrando a rigidez emocional e corporal que me acompanhou desde sempre influenciado pelo machismo estrutural enraizado em nossa sociedade.
Durante a meditação, também tive visões de mim no futuro, já idoso. Eu me via sem os músculos e sem as ambições materiais que muitas vezes ocupam tanto espaço na vida adulta, mas ainda com saúde e feliz por estar perto das pessoas que amo. Essa visão trouxe uma percepção muito forte sobre o que realmente permanece e importa com o passar do tempo.
Ao final, o pensamento que tomou conta da experiência foi a compreensão de que, desta vida, nada se leva. Nem dinheiro, nem músculos, nem habilidades, nem bens materiais. Quando chegar o momento da partida, o que realmente terá importado serão as memórias dos momentos de felicidade que nos permitimos viver neste mundo: as amizades, os relacionamentos amorosos, as viagens, as aventuras de moto (e não a moto em si), os encontros, os afetos e as experiências vividas de forma verdadeira.
Minha primeira experiência com a Psilocybe Cubensis foi, portanto, um encontro profundo comigo mesmo. Pude me conectar com aspectos importantes da minha história, reconhecendo a beleza da minha infância, as dores e desejos da minha vida adulta e uma visão mais ampla sobre o futuro e sobre o sentido da existência. Saí dessa vivência com gratidão por ter conhecido a meditação potencializada pelo alucinógeno como uma poderosa ferramenta de autoconhecimento, cuidado emocional e desenvolvimento pessoal.”