Eu fui o fósforo queimado
Se pudéssemos chamar o Burnout de “síndrome do fósforo queimado”, eu seria o fósforo.
Tentei iluminar o caminho de todos, sendo riscada repetidamente pela pressão de um ambiente de trabalho tóxico e pela instabilidade de uma relação emocional que me consumia. Eu queimei lento, até que não restou nada além de cinzas e um palito frágil quebrado.
Hoje eu entendo que o meu colapso não foi falta de capacidade, foi falta de espaço. Eu estava tentando desesperadamente caber em lugares, me anulando e acreditando que, se eu me esforçasse um pouco mais, eu me encaixaria.
Mas a alma não aceita ser negligenciada por muito tempo.
O travamento no carro, o pânico e o choro foram o grito de um ser que era grande demais para caber naquela vida sufocante. O clichê de que "a gente não cabe onde não há respeito" se tornou a minha realidade mais dolorosa e, ao mesmo tempo, a minha maior lição. Eu não quebrei porque era fraca, quebrei porque tentei ser pequena para não incomodar.
Em 23 de dezembro de 2025, após 45 dias de uma cirurgia para retirada de focos de endometriose, eu estava trabalhando para fechar o ano. Para piorar, com a ausência do chefe todas as decisões do fechamento ficaram em minhas mãos. Após algumas discussões e impasses com a liderança de outras equipes, segui acumulando o peso de responsabilidades alheias. Além da acumulação do trabalho, tive que lidar com a decepção do meu sobrinho por não conseguir cumprir minha palavra de levá-lo para ver a árvore de Natal: “Mais uma vez, deixo de fazer algo por mim e por quem amo para fazer algo por um CNPJ” - Caí em um choro profundo.
No dia 25 eu estava dirigindo para celebrar o Natal em família, mas algo na minha cabeça não estava bem. Me sentia estranha dentro do meu próprio corpo. Meus pensamentos só diziam: “por que está fazendo isso?”, ”você não vai conseguir ir até lá!”, “você terá que lidar com pessoas e fingir que está bem, será que você é capaz?”, “se você se sentir mal, como fará para voltar?”, “você precisa estar bem!”.
Liguei o ar-condicionado e comecei a ouvir uma música, foi quando passei a sentir o meu corpo dar choques. Parei de sentir minhas mãos e meus pés, as pernas perderam as forças e eu não sabia ao certo o que deveria fazer. Estacionei o carro no primeiro recuo que vi. Sentia uma onda passar da cabeça aos pés, o coração extremamente acelerado. Achei que ia morrer ali, que ia apagar, porque minha vista estava fechando. Com um lapso de consciência, liguei para um amigo vir me resgatar e me permiti viver o que estava sentindo, afinal, era a única coisa que poderia fazer. O sentimento que se instalava no meu corpo era um medo inexplicável.
Depois de passar por essa crise e descobrir que não ia morrer, concluo que foi tudo “invenção” de uma mente cansada querendo me proteger de mim mesma.
Quando a escuridão chegou, eu não quis acreditar. Naquele dia no carro, travada, sem conseguir falar ou agir, eu busquei desesperadamente qualquer desculpa: um erro médico, um problema físico. Eu queria encontrar uma justificativa externa para não ter que admitir que as minhas escolhas tinham me levado ao limite. Hoje, entendo que ser adulto é assumir que o “tenho que” esconde escolhas, ou seja, é nossa responsabilidade cuidar de nós mesmos e das consequências dessas decisões. O Burnout é, também, o fim da infância emocional.
Eu lutei contra a minha vulnerabilidade até entender que nela morava a minha força. Por muito tempo, achei que ser forte era carregar o mundo e nunca quebrar, mas a verdadeira força surgiu quando parei para me escutar. Percebi que cada "não" que eu deixei de falar para os outros era um "não" que eu dizia para mim mesma. O meu silêncio e a minha negligência comigo mesma me adoeceram.
Eu entendi que falar é um ato de coragem. Poder olhar para o mundo e dizer: "Eu não estou bem, eu tenho pânico, eu estou frágil" não é uma sentença, é um pedido de espaço. Ser frágil agora não significa ser fraca para sempre; é apenas um momento de desconstrução. Da mesma forma que levei noites trabalhando até tarde e meses sendo "a pessoa capaz de tudo" para construir esse esgotamento, agora me dou o tempo necessário para me reconstruir. O vício de se preocupar com tudo vai ficando cada vez mais consciente e distante.
A Grazi criança sempre estará aqui, mas a Grazi adulta finalmente assumiu o controle. Eu olho para aquela criança que só queria ser amada, aceita e útil e digo: "Eu cuido de você agora, mas as escolhas daqui para frente são minhas e eu assumo o preço delas". Eu aprendi a me notar, a me sentir e a entender que a minha força não está em ser invencível, mas em respeitar os meus limites. Não carregar mais o peso do mundo - apenas ser quem eu sou.
*Este relato foi corajosamente escrito por Grazielle, atualmente em acompanhamento terapêutico comigo. Importante lembrar que fazer terapia não significa estar a prova de crises e que é importante procurar ajuda médica e terapêutica em casos como o que ela testemunha.