A questão da heterofobia

Está mais difícil encontrar um parceiro nos dias de hoje? As coisas estão piorando? Costumava encontras mulheres reclamando da péssima qualidade dos homens, da falta de maturidade emocional, de cuidado com a saúde, sem iniciativa, etc. Mas agora temos os homens também insatisfeitos com os encontros, com o fato de suas parceiras estarem em níveis cada vez mais inacessíveis ao “homem comum”, muito exigentes... como conciliar dois mundos cada vez mais distantes?

Em uma recente conversa entre Ben Stiller e Scott Galloway (Notes on Being a Man — a Live Conversation with Ben Stiller - disponível legendas em português) o professor comenta que os homens se beneficiam muito mais de um relacionamento do que as mulheres. Segundo pesquisas citada pelo professor, viúvas são mais felizes do que enquanto o marido era vivo, enquanto que homens sem relacionamento normalmente acabam sequestrados por sites e aplicativos que os encaminham para extrema direita, violência, e comportamento antisocial. Realmente, me parece que mulheres solteiras são mais felizes e que homens solteiros são mais “destrutivos”..rs Como comecei a ver esse professor ser recortado em muitos reels, acabei pesquisando e descobrindo que ele é do mundo corporativo e dá aula de marketing, o que clareou um pouco a situação (Quando vejo alguém citando muitas estatísticas geralmente ligo meu alerta de viés de confirmação).

Uma coisa que vi em um outro podcast é a tal regra da “mulher alta”, que diz ser a evolução feminina na carreira e nos estudos um problema de soma zero, ou seja, que agora temos mais mulheres bem sucedidas, com o efeito “rebote” de um número decrescente de homens bem sucedidos(vide concentração de renda brutal). Esta perspectiva seria a comprovação econômica da “regra de pareto” citada na série “Adolescência” da Netflix que diz ser a proporção de mulheres para homens de 80 para 20, um tipo de ideia gestada em fóruns redpills que soa em muitos ambientes como algo “comprovado” pela realidade.

Homens e mulheres precisam entender que encontrarão pessoas com uma história, isso significa um acúmulo de questões não trabalhadas que tentarão ser resolvidas no encontro com você. Será que você é a tal pessoa que não vai errar aqui, e aqui, e ali… Um professora chamava o encontro amoroso de “esfregar feridas”, uma imagem bem dolorosa, mas não longe da realidade de muitas pessoas. Se você vive o encontro amoroso como algo doloroso e frustrante é importante que você entenda que não precisa ser assim e que a “culpa” disso não é sua, muito menos do sexo oposto.

É claro que mulheres desesperadas “aceitam tudo” e isso vai gerar feridas. Aprender a dizer não e ter seus gostos contemplados é um passo importante para equalizarmos o desiquilíbrio histórico entre os sexos. O problema dessa perspectiva é oscilar entre tudo para o outro, ou tudo para mim, que não ajuda quando o tema é relacionamentos.

Se pudéssemos voltar no tempo e acabar com o patriarcado tudo seria mais simples. Como isso não está disponível, perceba que suas dores herdadas de relacionamentos anteriores, ou de gerações anteriores, não vão te ajudar a encontrar um parceiro. Não é interessante usar a dor como um guia, nem o medo, para decidir com quem você irá compartilhar sua vida. Isso porque a dor não diz o que é melhor para você, mas sim o que você não quer que aconteça de novo. Um ponto que eu acredito ser melhor é avaliar o que você quer, invés de dizer “não quero um homem violento” ou uma “mulher que me traia” pense em qualidades positivas: quero alguém que faça trabalho voluntário, ou que se abra e seja honesta. Assim como na história do vinho novo em odres velhos, precisamos aprender a renovar nossa esperança e não projetar em nossos encontros velhas problemáticas - tratar as pessoas com desconfiança não inspira confiança.

Já que eu sou um homem, o que eu tenho a dizer aos marmanjos que me leem é que vocês precisam aprender com a mulheres a pararem de esperar uma solução externa, um salvador da pátria. Não existe, não que isso seja ruim, e sim que está mais do que na hora dos homens acordarem para questionar os padrões herdados de uma sociedade centrada no homem branco colonial que tem razão - logo, poder. O poder funciona, assim como o discurso redpill tem sua “efetividade”, afinal, torturar pessoas também funciona para mudar seu comportamento, mas está longe de ser o tipo de mudança que eu desejo ver nas pessoas.

Estamos desconfiados do amor porque nos machucamos muito tentando amar, não é a toa que muitos de nós prefere a guerra, pois conseguimos garantir os nossos interesses. Amar não é garantido, guerra e manipulação é, qual você prefere? Eu estou cansado de saber o destino da guerra e não quero mais pagar esse preço. Eu escolho o amor porque eu prefiro descobrir caminhos novos, quero viver histórias novas e dar às pessoas novas possibilidades.

Por uma vida mais criativa e diversa. Um mundo onde posso me frustrar e espalhar sementes de amor. Não deu certo aqui, mas seu coração saiu com vários brotos. Já já veremos os frutos desse amor em outras partes de nossa vida.

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