Como encontrar a dignidade em um mundo fritado?
“A iniciação ou a passagem das garotas para a vida adulta em um mundo psicologicamente enraizado e historicamente ancorado em experiências de homens poderosos marca o início da dúvida e do desvanecer da realização; não importa quão fugaz, aquela feminilidade requererá uma divisão dissociativa entre experiência e o que é geralmente assumido como sendo a realidade.
Enquanto a nossa pesquisa fornece evidências da resistência das garotas à dissociação, ela também documenta a iniciação das garotas nas divisões psicológicas que são familiares a muitas mulheres: elas não chegam a saber o que alguém sabe, têm dificuldade em ouvir a voz de alguém; demonstram uma desconexão entre a mente e o corpo, pensamentos e sentimentos, e o uso da voz de alguém para cobrir em vez de transmitir o mundo interno de alguém, de modo que os relacionamentos não mais providenciam canais para explorar a conexão entre a vida interna de alguém e o mundo dos outros.” Carol Gilligan
O que costumamos definir como “mundo machista” é apenas uma maneira simples de dizer “um mundo onde apenas uma maneira de viver é validada e socialmente aceita”. Esta concepção acompanha a visão clássica do que entendemos como “verdade”. Eu associo esta concepção de verdade a ideia de monoteísmo, coisa que explico mais detalhadamente em meu livro “Morra e seja aceito”. Ela acompanha a ideia cristã de quem “não aceitar Jesus não irá para o céu”, pode ser Alá, ou determinada seita, ou denominação, ou ter que ser cientificamente comprovado, ou algo prático, ou efetivo, ou produtivo, ou ter emprego, etc. Vocês sabem muito bem que quem não compartilhar destes “clubes” não tem acesso a dignidade humana.
O que acontece com você quando perde o emprego? Ou fica sozinha? Quando fica endividada? Se sente um lixo, certo? Isso acontece não porque você se tornou verdadeiramente algo ruim, mas é consequência de um exílio criado pela cultura da verdade única para coagir e pressionar todo mundo a seguir os valores babacas que elegemos como ideal.
Tudo o que existe precisa se adequar ao que está no altar de plantão: Se for um cientista, precisa ser racionalmente coerente; se for um pastor, precisa ser adequado à visão dele da Bíblia; se for um empresário, precisa ser rentável; se for um homem hetero, precisa ser magra e subserviente. Todos estes elementos são coincidentemente enunciados por homens, daí a ideia que esta estrutura vertical de verdade seja um reflexo do patriarcado ou de civilizações que centralizam o poder em torno da brutalidade e de valores guerreiros.
Tal descrição histórica nos ajuda a entender que o desespero para se enquadrar em um clube, ser aceito, é a grande propaganda patriarcal que mantém esta pirâmide de pé - inclusive o que chamamos de machismo. Quando questionamos os ideais, não estamos dizendo que ser rico e bonita é ruim, mas estamos questionando a centralidade destes padrões - sua inflexibilidade.
Poder ser diferente, mulher, indígena, poliamorosa, preto, umbandista, afetuoso, carinhoso, é o grande desafio de nosso momento existencial.
Nós nos sentimos loucos quando não somos ouvidos, isso porque somos tachados de burros e primitivos. Tudo que não se enquadra é tachado de errado, perverso, falso, inútil. Esta cultura não consegue ver e validar o diferente, ele entende todo diferente como inadequado. Existe o ruim, feio, errado, porém, ser diferente não é necessariamente ser desviante. O desafio de conversar com pessoas imersas na monocultura é sustentar nossa diferença diante do preconceito e da invisibilização.
Eu não sou uma minoria, não sou desviante, não preciso me justificar - você precisa entender que não preciso ser igual a você para ter dignidade.