Quando lutar e quando parar?

Eu sinto seu desprezo. Às vezes até acho que é para não se fragilizar, ou por eu estar passando de um limite seu, mas não cabe mais a mim entender isso. Estou aqui passando mais uma vez por cima de mim e dedicando um tempo para escrever. Mas enfim, bora!

Sou um fã do gênero cartas de amor, também amo amar. Tendo em vista que meus olhos estão cansados de ler coisas insossas sobre o amor, quero lhes apresentar algumas palavras traiçoeiras, palavras que farão as almas mecanizadas patinar e perder a curva.

Amar, queridas leitoras, se tornou um esporte de alto risco. É assim que eu sinto quando amo. Quando algum paciente reclama que está difícil encontrar alguém para amar, eu pergunto se ela está pronta para descer a mega rampa. Amar dá medo, e é pra dar mesmo. Afinal, nós nunca saímos como entramos. Se você quer amar, precisa levantar da cadeira do consumidor e começar a aprender a caçar, e a ser caçada.

Caminhar na direção do amor vai disparar todos os gatilhos e minas terrestres plantadas em experiencias passadas, seja desta vida ou das outras vidas. Quer amar? Adentre seu campo minado. Inicialmente perderemos algumas pernas, isso acontece inclusive em terapia. Quando eu digo, “olhe para você, por que você reage desta forma?” O paciente responde: “mas Paulo, olha o que o outro fez! Não adianta falar, elaborar minhas dores; dará errado de qualquer maneira.” O amor é como uma granada sem pino - vai explodir. Está pronta para continuar andando, mesmo sem pernas? Precisamos superar o primeiro limite mecânico: dar errado. Aprender a jogar um jogo novo ou rodopiar em triplos twists carpados, demanda que você consiga dar errado várias vezes. Use joelheiras, capacete, aprenda a brincar de amar com amigos, conhecidos, terapeuta, medium, guia, cogumelo. Tudo pode e deve ser usado no aprendizado desta modalidade de sentir que se assemelha a uma escalada sem cordas, sem garantias.

Um detalhe é importantíssimo: a terapia, como ambientes terapêuticos, nos ajudam a amar com segurança. Aprendemos balizas, como separar o importante do irrelevante. Marcamos trilhas perigosas, aprendemos estratégias para dissociar memórias de vivências, desarmamos passados para te permitir respirar e beijar o presente.

Eu me rendi totalmente a você, mas você se retirou. E sempre me substituiu tão rápido que eu me pergunto se um dia eu realmente tive algum lugar na sua vida, no seu coração ou na sua vontade. Tudo isso me machucou porque me senti sendo colocada em uma caixa, fiquei tão sozinha que me perdi de mim para tentar caber nela.

Amar em tempos de amor líquido é como estar em um labirinto com um minotauro querendo te comer viva. Fácil fácil. Pense que você tem anos e anos de experiências demarcadas por pais problemáticos, amantes traiçoeiros, desencontros humilhantes, abusos e violências. Cada vivência traumática ressoa em nosso inconsciente ativando mecanismos de defesa que alteram nosso comportamento, afetando a maneira como somos percebidos. Agora, multiplique este fractal de medos e antecipações por dois, pois todo recuo inibido pelo medo desperta no outro as próprias vivências de rejeição.

Por isso, quando leio um lacaniano tratando o amor como um joguinho de lego de falta e expectativas de preenchimento, eu me impressiono com essa simplicidade. Se fosse um encaixe, me parece mais razoável dizer que seriam dois quadros de Jackson Pollock tentando coincidir. Já a racionalidade, eu gosto quando Chesterton diz que a vida parece ser racional, mas nunca o é completamente. Temos um pulmão à direita e outro à esquerda, um olho lá e outro cá, um braço ali e outro aqui, e temos, curiosamente, um só coração. Olhar apenas para a razão te fará tropeçar no amor.

“Dói entender que, quando deixei de ser “útil” ou funcional para você, o descarte foi imediato e a reposição instantânea.”

Usar as pessoas como tampões é uma forma de “amar” com segurança. Vamos usando as pessoas, curtindo, enquanto não der trabalho. Quando isso acontecer, começamos a questionar e ameaçar, pra ver se a pessoa se toca. Caso ela não acorde: tchau! Essa postura está no extremo oposto da pessoa dedicada que aguenta tudo para manter a relação, com o sacrifício da própria vida, bem estar e amor próprio. Quando dar limites e finalizar uma história que não nos contempla e quando lutar para superar dificuldades da relação?

“Você escolheu não sentir. Eu escolhi sentir, mesmo que signifique sofrer mais e mais, talvez escolhi sentir por nós duas. E, mais uma vez, enquanto eu oferecia meu coração, você ofereceu um joinha… Patético hahaha é essa a realidade mas francamente, está tudo bem.”

Responder essa pergunta é saber o ponto inegociável. Esse ponto é incomensuravelmente e inalienavelmente seu e de mais ninguém. Pessoas que consomem outras não entendem que o que você faz ao outro você também aplica a si mesma. Ou seja, tratar outros como descarte é estar pronto para ser descartado. Sacrificar-se para ser aceita é buscar no outro a validação que falta em nós mesmos, é degradante. Se valorizar é valorizar o outro, reconhecer que a falta do outro é um problema dele, somente dele. Não podemos salvá-los de serem eles mesmos.

Vou encerrar com uma citação de uma outra carta, aquela do jovem poeta ao escritor Rilke:

O senhor me pergunta se os seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Envia os seus versos para revistas. Faz comparações entre eles e outros poemas e se inquieta quando um ou outro redator recusa suas tentativas de publicação. Agora (como me deu licença de aconselhá-lo) lhe peço para desistir de tudo isso. O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não devia fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever.

Os trechos em itálico foram cedidos por uma paciente generosa e querida que compartilhou uma carta de amor dolorida para desenvolver vacinas para suavizar o sofrimento daqueles que porventura estejam passando por uma situação parecida.

Próximo
Próximo

Leituras para se iniciar na saúde emocional